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terça-feira, 26 de agosto de 2014

KRUMP NÃO É HIP HOP

















POR QUE TIGHT EYEZ DISSE QUE O KRUMP NÃO É HIP HOP?

Bem, caros amigos, como já disse anteriormente, todos os dias muitas pessoas nos procuram em busca de informações sobre o **Krump**. Talvez alguns ainda não tenham percebido, mas a dança vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil — e isso também é resultado dos esforços de pessoas que, durante anos, buscaram estudar, desenvolver e defender o estilo.

O Krump já vem ocupando palcos através de artistas, bailarinos e grupos ligados às danças urbanas.

No Brasil, entre os trabalhos pioneiros que acompanharam esse processo, tivemos a **904 Krump Movement**, através do diretor **Bruno Duarte**, com apresentações em festivais de danças urbanas e também de dança contemporânea.

O **GRN — Grupo de Rua de Niterói** também passou a explorar algumas dessas possibilidades através do espetáculo **Crackz**.

Ao mesmo tempo, profissionais ligados ao balé, à dança acadêmica e a outras linguagens começaram a procurar informações sobre o Krump, interessados principalmente em características como **tônus, precisão, força, explosão e expressão corporal**.

Com a projeção internacional de nomes como **Tight Eyez**, o Krump passou a receber maior atenção da mídia e, consequentemente, de pessoas interessadas em ensinar, reproduzir ou utilizar sua estética.

Por isso, existe também uma responsabilidade importante dentro da comunidade: **estudar antes de ensinar**.

Não basta reproduzir alguns movimentos, espasmos corporais ou uma estética visual para compreender o Krump. Existe história, fundamento, linguagem, cultura, musicalidade e um processo de desenvolvimento por trás da dança.

É justamente nesse contexto que surge uma pergunta muito importante:

POR QUE TIGHT EYEZ AFIRMOU QUE KRUMP NÃO É HIP HOP?

Essa frase gerou — e ainda gera — muita discussão.

O principal problema está na forma como ela é interpretada.

Quando Tight Eyez afirma que o **Krump não é Hip Hop**, isso não significa necessariamente que o Krump esteja isolado de todas as outras manifestações da cultura urbana.

O ponto está na sua **estrutura de origem, leitura corporal, musicalidade e fundamentos próprios**.

Em determinado momento, muitas pessoas começaram a dançar utilizando estruturas corporais vindas do Hip Hop e simplesmente classificavam aquilo como Krump por adicionarem movimentos explosivos, chest pops ou movimentos agressivos.

Mas Krump não pode ser definido apenas pela aparência externa do movimento.

Durante workshops, Tight Eyez explicou que o Krump **não deve ser lido exatamente da mesma maneira que uma dança construída sobre a estrutura tradicional do Hip Hop**.

Uma das discussões surgiu justamente em relação às **traxx**, como são chamadas muitas das músicas utilizadas no Krump.

Algumas pessoas questionavam por que essas músicas não apresentavam necessariamente a mesma estrutura musical ou de rima encontrada tradicionalmente no Hip Hop.

A resposta de Tight Eyez apontava justamente para essa independência:

**Krump possui sua própria estrutura.**

Ele está inserido dentro de um ambiente de **cultura urbana**, dialoga com outras danças urbanas e absorveu diferentes influências ao longo de sua evolução, mas não depende do Hip Hop como sua única base estrutural.

O Krump desenvolveu:

* fundamentos próprios;
* linguagem própria;
* musicalidade própria;
* dinâmica corporal própria;
* conceitos próprios;
* personagens;
* formas específicas de expressão e construção de rounds e sessions.

Portanto, compreender essa afirmação exige separar duas coisas:

**dialogar com outras culturas e técnicas não significa ser derivado delas.**

O Krump sempre dialogou com diferentes referências.

Muitos dos pioneiros sequer tiveram treinamento formal em outras danças. Tight Eyez, por exemplo, já relatou sua admiração por **Michael Jackson**, mesmo sem ter tido acesso a aulas formais dessas linguagens durante sua formação inicial.

Muito do desenvolvimento surgiu através de **feeling, observação, experimentação, vivência urbana e necessidade de expressão**.

Com o passar dos anos, entretanto, a música mudou.

E quando a música muda, a dança também responde.

Novas dinâmicas corporais surgiram, as sessions se transformaram, novos conceitos foram incorporados e o vocabulário do Krump se expandiu.

Por isso, o Krump de hoje possui uma quantidade enorme de possibilidades técnicas sem deixar de carregar seus fundamentos históricos.

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FUNDAMENTOS DO KRUMP

 CHARACTER

**Character** é o personagem ou identidade construída pelo dançarino dentro da dança.

É através dele que o krumper estabelece sua presença, sua intenção e sua forma particular de comunicação.

O Character ajuda a dar naturalidade e coerência aos movimentos.

Ele participa da maneira como o dançarino:

* se expressa;
* reage;
* dialoga;
* constrói narrativas;
* estabelece presença;
* desenvolve sua personalidade dentro da session.

Isso não significa simplesmente "inventar um personagem".

Historicamente, esses personagens se desenvolveram ligados a **atitudes, comportamentos e arquétipos presentes dentro da cultura e da vivência urbana do Krump**.

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BASES PRIMÁRIAS

Entre os fundamentos históricos mais reconhecidos estão:

**Chest Pop**

**Stomp**

**Arms**

Dentro dessas bases existe uma enorme variedade de subdivisões, variações e possibilidades de movimentação.

Esses elementos estão diretamente ligados aos primeiros períodos de desenvolvimento da linguagem, incluindo sua relação histórica com o **Clowning/Rize**.

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BASES SECUNDÁRIAS OU BASES DE DESENVOLVIMENTO

Com a evolução do Krump, outros conceitos passaram a ocupar um papel cada vez maior dentro da dança.

Entre eles:

* Footwork;
* Buck Hop;
* Concepts;
* Grooves;
* Timing;
* Travels;
* Body Control;
* Angles;
* Poses;
* Tricks;
* diferentes formas de construção corporal e musical.

Podemos observar uma expansão especialmente forte desse vocabulário no período posterior à consolidação da geração **Krump Kings**.

Isso não significa que todos esses elementos tenham surgido exatamente naquele período, mas que começaram a ganhar novas aplicações, leituras e sistematizações.

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O DIÁLOGO COM OUTRAS DANÇAS

Uma das características mais interessantes do Krump é sua capacidade de incorporar referências sem necessariamente perder sua identidade.

Ao longo dos anos, técnicas de outros estilos passaram a dialogar com a linguagem do Krump.

Mas existe uma diferença fundamental entre:

**copiar uma técnica** e **reinterpretá-la através dos fundamentos do Krump.**

É nesse segundo processo que nasce boa parte da evolução da dança.

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GROOVE

O groove utilizado atualmente dentro do Krump não deve ser entendido simplesmente como uma reprodução do groove do Hip Hop.

Segundo explicações apresentadas por Tight Eyez, parte dessa transformação aconteceu pela necessidade de **respiração, controle corporal e adaptação à mudança da musicalidade**.

Nos primeiros períodos, muitas músicas utilizadas no Krump eram extremamente rápidas e frenéticas.

Isso fazia com que a dança também fosse muito intensa e acelerada.

As sessions geralmente apresentavam menos pausas e frequentemente possuíam duração relativamente curta.

Com a transformação das músicas e a introdução de novas possibilidades de groove, respiração e construção musical, os dançarinos passaram a desenvolver rounds cada vez mais longos.

Hoje podemos observar sessions que ultrapassam vários minutos de duração.

Quem já viu determinados krumpers como **Eyez** construindo sessions extremamente longas entende muito bem o nível de resistência, controle e desenvolvimento necessário para isso.

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BODY CONTROL

O **Body Control** representa a capacidade de controlar diferentes regiões do corpo de forma consciente.

Em determinadas aplicações, pode dialogar com conceitos de **isolation** encontrados no Popping e em outras linguagens corporais.

Entretanto, dentro do Krump, esses recursos são reinterpretados de acordo com:

* energia;
* intenção;
* musicalidade;
* textura;
* personagem;
* impacto;
* construção da session.

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TRICKS

Os Tricks podem utilizar construções corporais complexas, mudanças de direção e combinações não lineares.

Algumas dessas construções podem lembrar conceitos encontrados em outras danças, como determinadas formas de conexão corporal utilizadas no **Tutting/Tetris**.

Porém, dentro do Krump, o objetivo não é simplesmente reproduzir geometria.

Os movimentos podem não estar conectados de maneira óbvia, mas precisam apresentar:

**intenção, coerência e contundência.**

Existe uma linha de raciocínio.
Mesmo quando o movimento parece caótico, existe uma lógica interna sendo desenvolvida,e principalmente, ele precisa continuar carregando **Krump**.

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HAT TRICKS

Os **Hat Tricks** não nasceram originalmente dentro do Krump.

A manipulação de bonés e chapéus aparece historicamente em outras culturas e danças urbanas e ganhou grande desenvolvimento dentro de estilos como o **Litefeet**.

Dentro do Krump, entretanto, essa ferramenta pode ser reinterpretada e incorporada à construção do personagem e da musicalidade.

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SHOES TRICKS

O mesmo acontece com os **Shoes Tricks**.

Manipulações envolvendo tênis e outros elementos também aparecem dentro do universo do Litefeet e de outras manifestações urbanas.

Quando utilizadas no Krump, precisam ser adaptadas à linguagem da dança.

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TRAVEL E FOOTWORK

Travels e Footworks podem dialogar com:

* slides;
* steps;
* deslocamentos;
* mudanças de direção;
* referências oriundas de diferentes danças urbanas.

Entretanto, dentro do Krump, normalmente assumem características particulares relacionadas a:

**explosão, peso, impacto, precisão, intenção e atitude.**

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KRUMP NÃO PRECISA SER "LIMPO"?

Essa frase precisa ser entendida com cuidado.

Quando Tight Eyez afirma que o Krump não precisa necessariamente ser excessivamente "técnico" ou "limpo", isso não significa defender uma dança sem controle.

A diferença está na prioridade estética.

Krump não precisa necessariamente buscar uma geometria corporal rígida semelhante àquela encontrada em determinadas estruturas acadêmicas.

Podemos fazer uma comparação com o conceito de port de bras, no balé.

Na dança clássica, existe uma organização geométrica extremamente definida para posições e trajetórias corporais.

O Krump trabalha com outra lógica.
Isso não significa ausência de precisão.
Significa que a prioridade está em elementos como:

Intenção, dinâmica, impacto, energia e Buckness.

Em alguns casos, a tentativa excessiva de "limpar" o movimento pode retirar justamente aquilo que dá vida ao Krump.

ROUGH E BUCK

Krump precisa carregar uma determinada qualidade de movimento.

Ele pode ser:

Rough.
Raw.
Buck.

Mas isso não significa descontrole.
Existe diferença entre: movimento bruto e movimento sem domínio.
O primeiro pode possuir intenção extremamente sofisticada.
O segundo simplesmente não possui controle.

JERK BODY, LIVENESS E WARFARE

Em estados como Jerk Body Moves, Liveness ou durante uma Warfare, a dinâmica corporal pode atingir níveis extremamente intensos.

Nesse momento, o corpo trabalha com:

  • mudança de peso;
  • balance points;
  • controle do centro corporal;
  • explosão;
  • angles;
  • position poses;
  • mudanças rápidas de direção.

A utilização consciente desses recursos impede que o dançarino fique previsível ou estático dentro da session,você não está apenas se movimentando de frente para o público, você começa a explorar diferentes planos.

Frente.
Lateral.
Diagonal.
Profundidade.
Altura.
Rotação.

Mudanças de perspectiva.

É quase como transformar o corpo em uma estrutura tridimensional em constante reconstrução.
Tight Eyez chegou a abordar essa ideia como uma forma de pensar o Krump em "3D".

ENTÃO, KRUMP É HIP HOP?

Talvez a melhor maneira de compreender a discussão não seja simplesmente responder "sim" ou "não".
A questão central é entender qual estrutura estamos analisando.
Krump nasceu dentro de um ambiente urbano e dialoga profundamente com diferentes manifestações da cultura negra e das danças urbanas.

Mas desenvolveu uma linguagem própria.

Possui fundamentos próprios.
Possui estética própria.
Possui musicalidade própria.
Possui história própria.

E possui uma maneira própria de construir movimento.

Portanto, quando Tight Eyez diz que:

"Krump não é Hip Hop"

a leitura mais interessante dessa afirmação não é pensar em isolamento.

É pensar em identidade,o Krump pode dialogar, pode absorver, pode transformar, pode evoluir.
Mas precisa continuar sendo reconhecido através daquilo que constitui sua própria linguagem.
Porque conhecer movimentos não é o mesmo que conhecer uma dança.
E conhecer uma dança não é apenas executar seus movimentos.

É compreender de onde ela veio, por que ela existe, como sua linguagem foi construída e para onde ela pode evoluir.

Ainda existe muita coisa para discutir, mas talvez esse seja justamente o mais interessante no Krump.
Quanto mais estudamos sua história, mais percebemos que ainda existe muito para descobrir.

Mayckon Almeida — FleshBonez
KRUMPOLOGY





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